COMO IDENTIFICAR AS DIFERENÇAS ENTRE TANTRA E NEOTANTRA

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Mas o que é exatamente “Tantra”? Hoje em dia está na moda falar sobre isso, dizer-se “tântrico” e até mesmo numa rápida busca no Google, encontramos inúmeros “profissionais” de “Tantra..”. Mas… o que significa isso afinal de contas?

Podemos enumerar aqui, alguns significados mais comuns:

  1. Etimologicamente, do Sânscrito, significa: uso, trama, tecido, urdidura, expansão.
  2. Conjunto de livros anônimos, oriundos da cultura indiana, escritos aproximadamente entre os séculos VII d.C. e XV d.C., posteriores aos Vedas (Escrituras Sagradas Hindus), que preconizam a realização espiritual através de um ritualismo heterodoxo.
  3. Segundo a Wikipedia, o Tantra é uma filosofia hindu antiquíssima, (tomando expressão por volta do século VX), e, caracterizando-se por ser matriarcal, sensorial e desrepressora, tendo se tornado um complexo sistema de descrição da realidade objetiva, sendo, assim, considerada por alguns, uma “Ciência” prática e aplicável, tendo como base o pensamento de um povo muito antigo que até hoje faz ecoar sua influência sobre a sociedade contemporânea.
  4. Doutrina filosófica pontuada por ensinamentos práticos cujo objetivo é alcançar a expansão da consciência, o “Samadhi” ou “Nirvana” (iluminação, ou controle total da mente, dependendo da escola filosófica), através do despertar do potencial latente, da subida da energia vital, pelos Hindus chamada Kundalini. No que tange o atingimento desta meta, os “tantristas em geral”, sustentam que todos os meios ao alcance do ser humano são válidos para o crescimento interior, independentemente da situação em que cada um vive.
  5. Há ainda, dentre muitos outros significados, um particularmente conhecido, que afirma que o primeiro registro escrito do Tantra chama-se Vigya Bhairav Tantra, no qual Shiva, (princípio masculino da Criação, o arquétipo do Guerreiro), responde às perguntas de sua amada consorte, Shakti (princípio feminino da Criação, o arquétipo da Deusa), sobre Vida, Espiritualidade e Amor, entre outros temas que ainda hoje nos causam tanto curiosidade quanto estranheza. Neste tratado, Shiva transmite a Shakti, 112 (cento e doze) sutras, ou seja, métodos de meditação, com os quais ela obteria suas próprias respostas.

Algumas dessas meditações incluem o ato sexual, como um caminho para a libertação espiritual: isso significa que o Tantra inclui todos os aspectos da vida, inclusive o ato sexual como meio de alcançar a libertação, ou a iluminação. Desta forma, observamos que as técnicas mencionadas no Vigya Bhairav Tantra são não-moralistas, não-religiosas e não-filosóficas (dentro do conceito de filosofia que aplicamos atualmente). Algumas destas, estão focadas na respiração, outras em questões emocionais ou na relação com a natureza, com outros seres humanos ou animais, entre muitas outras possibilidades. Todavia, independentemente da técnica utilizada, todas focam-se no centro do ser, na origem de todas as percepções do indivíduo.

Mas, basicamente, o que chega mais próximo da realidade, é o fato de ser o Tantra uma experiência pessoal única e individual, que objetiva, em praticamente todas as formas e vertentes, a reconexão do indivíduo consigo mesmo, numa primeira instância, e com o Divino habitante em cada um de nós, através da expansão da consciência, não importando o nome, tradição, religião, doutrina ou filosofia ao qual pertence. Tantra sobretudo é sensorial e vivencial.

Em cada criatura há o Sopro Divino, uma fonte de Luz ou Energia, ao qual chamamos pelos mais diversos nomes. Este sopro é algo que habita o mais profundo em nós, e eu prefiro chama-la Universo ou o Todo, (pois contém tudo e onde tudo está contido) e, desta forma, não seria necessário nenhum estímulo externo para que pudéssemos acessa-la em toda sua plenitude. Porém, com o advento da “Civilização”, o homem tornou-se cada vez mais distante desta realidade, separando-se do Todo, reprimindo sua verdadeira natureza e rotulando-a como pecaminosa e até mesmo suja. O homem moderno perdeu a conexão consigo, renunciando à própria Consciência Divina, que nada mais é que o instrumento de experimentação do Universo Manifesto.

Não obstante, face a tantas mudanças e a essa dicotomia do Homem com a Divindade, seria uma utopia praticarmos o Tantra, em sua pureza, em pleno século XXI.

Visto isto, tomamos por base uma nova leitura do Tantra, denominada NeoTantra, difundida pelo mestre indiano Osho, no fim do século XX, que, da mesma forma que o Vigya Bhairav Tantra, utiliza também a sexualidade como apontamento para o despertar.

E, em tratando-se de uma interpretação com direcionamentos mais modernos, o termo “Neo”, fundamenta-se por utilizar-se também de outras terapias auxiliares a esse “despertar”, como o “Renascimento” (Leonard Orr), Bioenergética (Reich e Lowen), conceitos Junguianos entre muitos outros, e, sobretudo, por não observar a tradição do parampara, na qual há a transmissão oral de conhecimentos entre um mestre e seus discípulos. E congrega sim, visando o Despertar da Consciência, práticas meditativas, danças e até rituais sexuais propriamente ditos, trazendo interpretações ocidentais do Tantra Tradicional e Budista.

Segundo as antigas escolas de Tantra, mais puristas, um dos preceitos é o conceito de começar com o que se tem, onde se está naquele momento, ou seja, não importa o seu nível de consciência, apenas comece a caminhar, porém, a grande maioria dos seres encontra-se ainda prisioneira das suas emoções, face alguns milênios de doutrinação dogmática, tendo como base o sectarismo e o conceito do pecado. As religiões em geral, colocaram o sexo como algo sujo, pecaminoso, não-natural e até desnecessário, cuja prática seria apenas aceita (com uma serie de regras) para procriação, mutilando assim a essência do ser humano.

Mas o que observamos em nossos dias é que o sexo se mantém cada vez mais presente e vivo, porém, alimentado de formas muitas vezes prejudiciais ao emocional e psicológico do indivíduo. Alguns o enxergam como meio de descarga energética, outros como moeda de troca, mecanismo de controle, fonte de medo, culpa, vergonha entre muitos outros fatores.

E, com o crescente o interesse pelo Tantra no Ocidente, sua percepção se afasta consideravelmente das tradições mais puristas, sendo, por muitos, visto apenas algo próximo da libertinagem, como um culto ao prazer pura e simplesmente, pretendendo, com isso, erradicar séculos de repressão em relação ao sexo. Posto isto, muitas pessoas associam “Tantra” a “sexo fácil” ou “melhora da sexualidade”.

Na realidade, o Tantra em sua essência, preconiza o sexo como um ato sagrado capaz de elevar os seus participantes a um plano espiritual elevado. O Caminho da Aceitação e da Suprema Compreensão.

Não obstante, nos dias de hoje, percebemos que o Tantra tem se tornado uma mercadoria cara e meramente sexual, mas em essência, a sua realidade é outra, tendo a possibilidade de ajudar efetivamente, nossa sociedade à beira da inconsciência, profundamente enraizada em conceitos e julgamentos nocivos, que cada vez mais afastam o individuo de si mesmo e da Fonte Primordial. O Tantra acredita que todos somos Divindade, apenas esquecemos disso…

Paula Manadevi

Sexóloga Sistêmia, Educadora Sexual Somática e Terapeuta Tântrica Integrativa.

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